Então, eu O ouvi em meu coração

Quando  pequena sempre fui uma criança muito carismática e interessada nas coisas da Biblia e sobre Jesus.Segundo conta minha mãe eu reproduzia tudo aquilo que eu estava aprendendo  na igreja e com meus pais, nos momentos em família. Uma amada tia  Maria Luíza me encantava com as muitas histórias contadas por ela sobre Deus e seu amor por mim. Tudo aquilo me inspirava muito e foi instilando um sentimento de fé naquele meu coração infantil.

A propósito, um dia desses, a minha mãe me mostrou uma cartinha guardada que, aos 6 anos de idade eu escrevi para Deus e entre os pedidos pela saúde da minha vozinha Oscarina, então com quase 80 anos e pelos familiares que ainda não conheciam o amor de Jesus, eu pedia um filho quando crescesse. É...fazem 30 anos mas  como a oração não tem prazo de validade, ...aquele pedido pode estar valendo...rsrs!

Brincadeiras à parte, lembro-me como se fosse hoje que por mais que tivesse algum conhecimento ou mesmo certa habilidade no exercício da oração, muito interessante para uma menininha pequena, foi apenas aos 11 anos que tive a experiência tremenda de enfim, ouvir Deus, pela primeira vez.

Eu sofria de alergias constantes e depois de algumas consultas com um renomado médico na cidade de Natal, minha mãe chegou a conclusão de que se tratava de uma adenoide. Cirurgia marcada e lá estava eu levada por meus pais para uma clinica para fazer a adenoidectomia|*. Lembro-me bem de estar rodeada de mulheres que estavam na maioria se preparando para fazer  ligação de trompas ou outros procedimentos cirúrgicos do gênero. A única lembrança que tenho antes da cirurgia era de estar lendo para algumas delas o Salmo 23 onde eu expressava minha fé no bom Pastor que podia me ajudar e também ajudar a elas. Surpresas com a eloquência e a fé 'daquela menina', muitas paravam pra ouvir e se mostravam mais confortadas pelas palavras lidas e a oração feita. Pedi pela cirurgia de todas e lembro-me, que ,sem muitos temores eu entrei na sala de cirurgia, e estranhamente o médico me perguntou enfim qual procedimento seria o meu. Isso, claro, não se pergunta a um paciente nem a uma criança. Mas, por incrivel que pareça ele perguntou. E por mais incrível que pareça eu não respondi e ele mandou-me entrar assim mesmo- e o pior-, eu entrei.

A cena de como o efeito da anestesia foi chegando no meu corpo sonolento se segue com a lembrança de uma visão turva quando aos poucos fui me dando conta de já estar de volta a enfermaria e totalmente sufocada com a quantidade de sangue que jorrava por dentro e por fora do meu nariz. Eu não enxergava direito mas ouvia a voz da minha mãe tentando me acalentar, porém, seu tom de voz mostrava que algo não ia bem.

A cirurgia trouxe complicações no pós-cirúrgico e eu estava tendo hemorragia descontroladamente. O médico foi procurado pela equipe mas estava 'desconectado', provavelmente por saber o que tinha ocorrido. Não apareceu na clínica pelos próximos dois dias.

Lembro-me da sensação terrível de agonia com tanto sangue que jorrava e era necessário as vezes colocar tudo pra fora para recomeçar tudo de novo. Eu sentia falta de ar porque o nariz estava totalmente bloqueado com o sangue. Tentava manter-me calma para conseguir respirar pela boca apesar de estar também muito cheia de sangue.

Toda agonia aconteceu por horas até que um médico da minha querida tia Raquel foi contactado e veio em meu socorro aplicando uma sonda que me trouxe muita agonia mas que me garantiu o estancamento do sangue e ainda de bônus fui "obrigada" a consumir sorvete. Um pequeno mimo, necessário para o processo de cicatrização, compensando tanto sofrimento.

O meu sentimento era de decepção principalmente quando percebi que à porta, assistindo aquela agonia, as mulheres que antes consolei com a Palavra de Deus, me olhavam tristes e preocupadas com o que acontecia com aquela garotinha, antes, tão cheia de fé.

E poucos dias depois, já em casa,  desenvolvi um medo terrível de passar todo sofrimento de novo.Desenvolvi uma reação como de asma. Quando pensava na cirurgia, um pânico se aproximava e ficava completamente perturbada, sentindo-me sem ar. Varias vezes precisei ser levada a  Urgência por meus pais e pelo meu prestativo tio Antônio, e o desespero da morte parecia estar me rondando todos os dias quando a noite caía. Hoje acredito que os sintomas estavam me levando a um transtorno pós-traumático ou talvez síndrome do pânico.

Eu não mais falava com Deus, lembro disso. Ele pareceu-me distante e- pior,- como um amigo que traíra minha confiança e me abandonara quando mais precisei. "Ele não cuidou de mim" como eu estava plenamente confiante que o faria.Silêncio total com Ele. Decepção.

Mas em uma das várias vezes em que voltando da Urgência na madrugada fui colocada no sofá da sala e ali tentei dormir, foi em vão. Imóvel pelo medo de me mexer e a falta de ar voltar,  me vi sem outra possibilidade senão quieta e parada mirar o céu através da janela  um pouco acima de mim.

Lembro de ver o dia clarear. E enquanto sentia o coração endurecido e triste, sem perspectiva de viver muito tempo,  eu me lembro de ter olhado aquele céu azul e nuvens branquinhas e perguntado: "Por que o Senhor fez isso comigo?" Foi a primeira vez, que em todos aqueles anos eu fiz uma oração tão carregada de um verdadeiro sentimento para com Deus, mesmo não sendo um sentimento positivo,  como nada ensinado antes pra mim, mas algo saído de um coração honestamente decepcionado, mas mesmo sem eu entender ainda, um coração confiante o suficiente pra não mentir sobre essa decepção.

E de fato, aquelas eram  minhas palavras após uns dias de silêncio. E foi acompanhando com o olhar triste uma nuvem passando lentamente no céu que senti algo em minha mente dizendo : "Ilana , você está viva!" Aquelas palavras ecoaram tão profundo no meu coração porque eu sabia que não era uma dedução minha, até então eu não havia pensado em nada além da certeza de que iria morrer.  E de fato não me parecia um pensamento produzido por mim. Era algo tão externo a mim mas soprado tão dentro de mim que eu me assustei como se alguém pudesse ter ouvido também. Eu levei um susto. E tive uma certeza: "Ele está falando comigo!"

O choque e a certeza de estar sendo ouvida mudaram o clima de tristeza e eu só lembro de ter pronunciado as seguintes palavras: "Então, me ajuda a suportar!"

Aquela garota de 11 anos, de frente para uma janela naquela manhã de 1991 chorou silenciosamente sentindo pela primeira vez que o Deus de quem tanto falava para as pessoas porque aprendeu que era um Deus verdadeiro, o Deus dos seus pais, o Deus que ouvia as orações, agora era também o seu Deus, o Deus que responde, o Deus que se importa, o Deus que ajuda a suportar a dor... um Deus que se comunica com a gente.

Posso dizer que os sintomas de falta de ar continuaram presentes ainda por algumas semanas, desenvolvi alergia a medicamentos e voltei inúmeras vezes ao médico. Mas creio que foi ali que estava começando a surgir uma relação mais próxima com Deus e entendia que o Criador era também o meu amigo e aprendi a correr pra Ele nos momentos mais difíceis, até ser totalmente recuperada das sequelas da cirurgia mal-sucedida,  e aprendi a dividir também com Ele outras experiências como o primeiro amor que logo chegou e outras situações da vida.

Fui com o tempo estudando e aprendendo pouco a pouco sobre oração, como um processo de relacionamento, de ida e vinda,  de comunicação, de relação...e ao longo da vida fui tendo novos aprendizados sobre Deus e Suas formas de falar comigo. Como cresci com tudo isso!

Lembro de ouvir meu pai contar-me que embora meu nivel de sangue tivesse ido tão baixo e haver a possibilidade de ter que receber transfusão,  eles oraram pra que não fosse necessário. E através de uma dieta cuidadosamente controlada por minha mãe, recuperei o nivel de hemácias necessário.

Certamente você pode estar se perguntando o que aconteceu com o tal médico. Por alguma razão minha mãe não o processou mas esteve frente a frente com ele e disse-lhe todas as coisas que uma mãe enfurecida pela irresponsabilidade de um médico gostaria de dizer. Ele se retratou, e só o que me lembro é que a vida seguiu.

Jesus, O amigo das crianças
Eu estava tão feliz pela nova vida, pela oportunidade de conhecer o velho amigo de uma nova maneira, que não podia perder mais um minuto olhando para o que não dera certo. Acho que enfim estava começando a compreender o que Ele quis dizer no salmo 23 que embora sendo o Bom Pastor, Ele às vezes nos conduz pelo vale da sombra da morte, mas Ele está com a gente. E sim, Ele esteve comigo...Ele sempre esteve.

E continuou...porque era apenas o comecinho da jornada. Finzinho da infância e o início da fabulosa e também turbulenta fase da adolescência. Ah! Como eu ia precisar de todo este aprendizado.

Mas, por hoje é só. Em outro momento falarei mais sobre as aventuras que se seguiram ...
Pois a jornada continua...

(Aproveito o espaço pra expressar minha gratidão pelos meus pais, que sempre foram minha maior referência de fé e amor a Deus.)

(obs: *adenoidectomia -retirada da adenóide, ou também chamada "carne no nariz")

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

1º Diário de Jornada

Cantando na dor

Nasce um pai, nasce uma filha.