Quando o mundo parece hostil

Há alguns poucos anos atrás estive em um encontro de educadores de crianças e fiquei muito encantada ao ouvir a irmã Ana Maria Bezerra contando para nós a história do livro " Menina Bonita do Laço de Fita"(de Ana Maria Machado, da Editora Ática). Estávamos fazendo parte de um treinamento para alfabetização de crianças de periferia e esta história podia ser um importante recurso para ajudar as crianças negras a se identificar e se valorizar na beleza das suas características étnicas.Um recurso para trabalhar a auto-estima.

A contadora tinha toda uma técnica, muito espontânea e muito delicada de trazer a história e eu me sentia como uma criança que ouvia atenta e ao mesmo tempo parecia reviver alguns anos da minha história. Ah, como eu queria ter ouvido aquela história muitos anos antes...

Cresci num lar cristão, meus pais muito amorosos e simples. Minha mãe muito carinhosa me cuidava com o amor que algumas vezes parecia tentar equilibrar-se entre  palavras de encorajamento para que eu conseguisse enfrentar o mundo hostil e por outro lado, uma superproteção que me poupasse desta mesma hostilidade e me mantivesse sempre como uma criança pura e longe de toda maldade.

Mas dentro de mim, a criança pura e protegida foi dando lugar a uma pré-adolescente que se encontrava pouco a pouco com um mundo que maltrata, e especialmente aqueles que não são considerados ideais pelos padrões já determinados. No meu caso, uma menina negra. Antes uma criança carismática, falante e alegre. Inteligente. Sempre aplicada nos estudos, com potencial de quem aprendeu a ler aos 4 anos e era adiantada na classe... Mas com o tempo percebia que isso não parecia bom o suficiente para que eu fosse considerada alguém importante. Afinal por alguma razão o mundo parecia 'descobrir' de uma hora pra outra que a minha cor de pele era negra. E pelo visto, não parecia gostar disso.

Minha família havia se mudado quando eu ainda era pequena pra outro estado em que, diferente do Rio de Janeiro, a população não era formada por muitas pessoas negras, o que me dava a impressão de que eu era muito diferente e por isso, alvo de algumas zombarias. O mundo antes como um lugar de passeio agora era uma estrada perigosa e ameaçadora, pois crianças podiam ser cruéis quando escolhiam uma característica sua para zombar.

Com o tempo, a espontaneidade e alegria foram dando lugar a um medo, timidez e raiva que foram se instalando no meu coração. Minha alegria era estar na igreja e ouvir as lindas histórias de Jesus, cantar, mas elas não estavam mais sendo suficientes pra me restaurar a segurança, roubada pouco a pouco a medida que eu estava crescendo.

O complexo de inferioridade foi chegando. E a insegurança de viver, não tão comum na adolescência foi chegando de uma forma  violenta...que mesmo tendo bons amigos a sensação de ser inadequada foi  fazendo parte da minha vida.

Muitas situações ruins aconteceram... minha auto estima ia se definhando...mas eu sabia que em algum lugar do meu coração havia uma pequena fé:  Jesus, esse nome me dava consolo. Eu me sentia amada por Ele. Quando eu orava podia sentir que Ele me ouvia. Eu tinha aprendido isso poucos anos antes, no episódio da cirurgia de adenóide, contada no artigo anterior a este.

Minha mãe costumava me abraçar tentando amenizar minha dor e dizer: "Seja você, diante de quem quer que venha te magoar...seja você!" Era muito bonito seu cuidado, mas... quem era eu?

Engraçado como nesta fase, aos 12 anos, a gente procura alguém pra se identificar. Mas eu parecia estar perdida num mundo que apresentava como bonitas as Paquitas, a Xuxa, Angélica, e as demais mulheres loiras e brancas...Como desejei ser branca e loira! Nas minhas fantasias eu queria ser artista, loira, famosa, querida e amada.

Na escola, um livro didático de Português trazia a historia de uma garotinha negra que sonhava em acordar branca para sentir-se feliz e parar de sofrer. O tom melancólico e realista das histórias que se seguiam nesta temática me deixavam ainda mais triste e com a certeza de que não havia um lugar para mim no mundo.
http://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2015/09/12/holograma-interativo-de-whitney-houston-ira-percorrer-o-mundo-em-2016/


Apenas pouco tempo depois conheci pela TV aquela que seria uma grande referência para mim em termos de beleza, postura, talento e jeito de ser. Whitney Houston, a bela e super talentosa cantora norte-americana.E foi através dela que eu desenvolvi o que seria um desejo de criança: cantar, gravar um disco, compôr, enfim...!Whitney me "ensinou" a caminhar pelas trilhas da canção, e neste caminho eu conseguia me sentir alguém. Mas ainda não sabia ao certo quem. Afinal ao me olhar no espelho não era Whitney que eu via, era alguém que ainda não tinha identidade. Alguém "desprovida de beleza" para atrair os meninos da escola e desinteressante o suficiente para ser desprezada.Eu me tornava o que achava que as pessoas gostariam  que eu fosse. Se fosse legal ser alegre eu era, se era legal ser engraçada, eu tentava assim... se eu conseguia atrair amigos pela espiritualidade, que assim fosse.

Me tornei então a menina engraçada, que cantava muito bem e super espiritual. E aos poucos muita gente foi se aproximando. Eu podia não ser bonita como as outras meninas da minha turma, ou a minha irmã, mas de certa forma, estava encontrando minha identidade e ocupando algum lugar no mundo...

Aos 15 anos, eu já conseguia entender que era essa a minha identidade... mas...será que era mesmo?

A jornada está só no começo...
Mais a frente continuamos...Até lá!

Ilana Nascimento Sabino



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